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A cultura do dia a dia por André Imaginário e Vanessa Oliveira, em entrevista

Surgem em décadas e escolas musicais diferentes, mas juntar os tempos não é um problema para eles. Os ilhavenses André Imaginário e Vanessa Oliveira juntaram-se na primeira edição da MILHA, no ano passado: ele reencontrou-se com a eletrónica, ela descobriu a Lena D’Água. Este ano voltam à Festa da Música com repertório original e mais tarde, em dezembro, assumem um projeto de criação com a artista Ana Jordão, no LEME.

Como têm sido os vossos percursos na música?

André: Comecei muito cedo, tive várias bandas de rock, algumas nem saíram da garagem, já toquei covers, faço parte dos Patinho Feio e dos Tributus, dou aulas de música, faço umas brincadeiras em casa e tenho um novo projeto com a Vanessa.
Vanessa: Profissionalmente, estou na música há dez anos, já passei pelo rock, pela música clássica, canto lírico, chill out, drum and bass, de que tenho um projeto de originais e dub step. Sou professora de canto e piano, tenho trabalhos a título independente e com outros grupos, os Coolectivo 68, onde fazemos um tributo a Stevie Wonder, e os Black Tie, de música jazz. Além disso, tenho este novo projeto com o André.

Juntaram-se na primeira edição da MILHA, há um ano,a convite do 23 Milhas e da Cais do Som. Pelos vistos, foi uma experiência a repetir...

V: Foi fantástico. Foi a primeira oportunidade de fazer um trabalho para a zona onde vivo, um trabalho a pensar num festival feito para Ílhavo, em Ílhavo. Apesar da responsabilidade acrescida, foi uma óptima oportunidade para voltarmos a trabalhar juntos depois de nos termos separado para seguirmos com os nossos projetos. Alguns anos depois, teve graça juntarmo-nos e perceber como é que cada um evoluiu e como é que cada um trabalhou a sua linguagem. E embora tenhamos mudado e cruzado linguagens, resultou.
A: Eu acho que já tinhamos passado aquela fase de nos conhecermos como músicos e, por isso, a partir do momento em que nos juntámos já sabíamos o que é que podíamos ou não fazer. Tentámos fazer algo diferente e acho que até correu bem. Eu acabei por explorar, com este convite, uma faceta que nunca tinha aprofundando ao vivo, e acabei por brincar muito com a eletrónica.

No ano passado, o desafio foi homenagear o trabalho de Carlos Paião. Embora estejam habituados a trabalhar grandes vultos da música, sentiram uma responsabilidade maior por ser um músico com raízes locais e por existir umaligação tão emocional com as memórias de Carlos Paião?

V: Pensámos muito nisso! (risos) O nosso repertório na MILHA do ano passado foi essencialmente composto por autores portugueses. Trabalhámos Lena D’Água, por exemplo, o que me fez descobrir muita coisa dela que eu nem sabia que existia. Revisitámos a “Vinho do Porto” do Carlos Paião, que transformámos mesmo muito e sabíamos que ou corria muito bem ou teríamos que sair a correr do espaço. Há um carinho muito grande da parte dos ilhavenses pelo Carlos Paião, um certo territorialismo musical, o que é inevitável acontecer quando são nomes muito grandes ou músicas intemporais. Mas o tema acabou por ser muito bem recebido.

A: Correu bem porque o festival tem um público muito abrangente, muito disponível. E foi também por isso que tivemos coragem para oferecer uma versão tão modificada, porque sabíamos que o contexto o permitia.

V: Sim. Também porque achamos que o desafio da MILHA é esse, que os artistas se reinventem, criem e pensem a música.

Sob a mesma temática marítima, mas para outro festival, o LEME, foram desafiados pela Bússola e pelo 23 Milhas a criar a banda sonora de um espetáculo de circo contemporâneo. Como está a ser a experiência?

V: Estamos a trabalhar com a Ana Jordão no espetáculo “Chama do Mar”, que estreia no LEME. O mote é semelhante ao da Milha e, embora seja difícil dissociar as linguagens, a viagem com a Ana Jordão é completamente diferente.

O percurso de ambos é muito marcado pela colaboração em bandas de tributo e pelo ensino, não tanto pela criação. É algo em que pensam apostar mais?

A: Eu já tinha alguns originais embora não os apresentasse enquanto trabalho a solo. Sempre criei, mas nunca revelei mais que umas brincadeiras. De resto, apostei sempre nos originais com os Patinho Feio.
V: A verdade é que não é por falta de material ou de aposta. Não sei se será o caso do André, mas penso que ele, tal como eu, terá muito material numa espécie de gavetinha onde guardamos demasiadas coisas.

Sentem-se em terreno pouco fértil?

V: Os músicos sentem uma necessidade inata de criar. Mesmo que saibamos que são coisas que nunca vão sair da garagem, criamos porque temos coisas na cabeça, letras, melodias, harmonias. Há uma realidade que é transversal a todos os músicos que conheço: todos temos projetos na garagem. Quer seja porque o projeto deixa de fazer sentido para o músico, quer seja porque não há espaços para receber os artistas, ou porque há mas somos muitos. Relativamente a oportunidades, não havia, até ao aparecimento da MILHA, hipóteses para projetos locais mostrarem o seu trabalho. E no ano passado tivemos todos a mesma visão: adorámos tocar na nossa terra e pudemos finalmente interagir uns com os outros, coisa que só a proximidade não permite. Têm de se criar momentos propícios à proliferação de projetos jovens ou mais pequenos, mas isso não quer dizer que a responsabilidade de construir uma carreira seja de um Município ou de uma instituição. Mas é bom sentir o apoio, o conforto da rede. Desde que o 23 Milhas surgiu, há espaço para isso, desde residências artísticas a festivais como a Milha, há estímulos para a criação de uma comunidade de artistas.

E acham que essa comunidade de artistas está a ganhar corpo?

V: Nós conhecemo-nos todos muito bem uns aos outros, falamos dos nossos projetos, mas para haver colaboração entre nós é preciso que haja espaços e estímulos como o da Milha. E, para já, ainda há uma certa estranheza. Na cena cultural há sempre este desconforto inicial, mesmo do público. Lembro-me de quando surgiu a renovação dos quatro espaços do 23 Milhas e levou algum tempo até que as pessoas percebessem o que implicava esta transformação. Felizmente, já noto um aumento e uma diversificação do público, mas as pessoas têm sempre muito medo do que
não conhecem, muito medo de arriscar. E mesmo entre nós, artistas, pode acontecer o mesmo.

Uma das grandes apostas do 23 Milhas é o espaço de residência artísticas, na Fábrica das Ideias. Vocês já tiveram e terão mais alguns momentos de residência artística com a Ana Jordão, na Gafanha da Nazaré, no âmbito do LEME. Um literal ir para fora cá dentro…

A: Numa primeira fase foi tudo muito à base da exploração e da descoberta. Como ilhavenses, mostrámos o Município à Ana, sobretudo os locais mais ligados ao tema do mar, e o mais interessante é que acabámos por ver algumas coisas novas para nós também.

V: Fui ao Aquário dos Bacalhaus a que nunca tinha ido, por exemplo. Para já, serviu para nos conhecermos, fazermos umas primeiras experiências, por aí. O facto de termos um espaço para criar faz-nos ir com outra disposição, totalmente focados e inspirados.

Este projeto a dois vai continuar?

V: Neste momento estamos muito focados em trabalhar, criar e produzir. Ainda não parámos para pensar no processo de pós-produção, nem falámos sobre o futuro do projeto.

Acham que na 40ª edição da Milha haverá um tributo a André Imaginário e Vanessa Oliveira?

V: Acho que não. Espero que não! (risos)
A: Deixa-me fazer contas...

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