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A cultura do dia a dia por Helena Zália e Sara Bandarra, em entrevista

Helena Zália e Sara Bandarra são ilustradoras e professoras de Educação Visual emprestadas a Ílhavo pelo destino. Helena Zália nasceu em berço duplo: migrou de Guimarães até à Gafanha da Nazaré, onde leciona e é ilustradora há 15 anos. Sara Bandarra é aveirense, mas vive em Ílhavo há 17 anos, onde dá aulas no Agrupamento de Escolas de Ílhavo. Partilham a necessidade de criar, de colocar imagens em tudo ou no nada. No intervalo existe a poesia. Ambas contam histórias e partilham o mesmo desejo para o desfecho das suas: não desistir da ilustração

Todas as crianças desenham, mesmo antes de ir para a escola. Mal ou bem, todos desenhamos. No vosso caso, quando perceberam que era mais do que isso? Como se tornaram ilustradoras?

Sara Bandarra: Sempre tive este gosto por contar histórias através de imagens. O meu pai contava-me muitas histórias e comprava muita banda desenhada. Lia para nós e, por vezes, quando eu e o meu irmão gostávamos especialmente de uma personagem, o nosso pai inventava mais histórias à sua volta. Em pequena gostava de pintar, de desenhar, especialmente com o meu irmão. A minha família do lado do meu pai sempre esteve muito ligada às artes, por isso vivi no meio das tintas, dos pincéis e dessa linguagem visual. Sempre tive essa necessidade e gostava de ter tirado um curso de ilustração, mas na altura não existia Ilustração em Portugal e fui para Design de Comunicação. A necessidade de desenhar, aliada ao facto de sempre me ter desafiado a fazê-lo, acabaram por definir o meu papel enquanto ilustradora.

Helena Zália: Eu nunca senti que tinha esse talento, esse dom ou qualquer coisa de especial, mas sempre adorei desenhar. A vida toda, desde que me lembro que existo. Sempre gostei de criar, de transformar simples objetos. Na minha família não existe ninguém ligado às artes, mas sempre me incentivaram a seguir esse caminho. Mais tarde, na escola, comecei a aperceber-me de que conseguia fazer desenhos um bocadinho melhor do que os os outros e era convidada muitas vezes pela professora para fazer cartazes e ilustrações para a escola. Mas é, sobretudo, como a Sara diz: uma necessidade que nós temos, é algo que nem sei muito bem explicar. Eu sei que tenho de fazer desenhos, de criar. Essencialmente criar. Pode ser com tecidos, com gesso, com tintas...tornaram ilustradoras?

Guardam desenhos antigos? De quando nem sabiam que seriam ilustradoras?

HZ: Não guardo muitos, mas lembro-me da primeira ilustração a sério que quis fazer. Embora na minha casa não houvesse livros, a minha mãe tinha sempre revistas de moda e costura. Eu olhava para as revistas e sentia-me atraída pelas ilustrações. Foi a primeira coisa que chamou a minha atenção para o gosto pela imagem. No 1º Ciclo, descobri as ilustrações da “Anita” e tentei criar um livro semelhante, o que talvez seja tabu quando se fala de ilustração hoje em dia (risos). Nessa altura, os desenhos não ficaram nada parecidos e desisti da ilustração. Só regressei muito mais tarde, já na universidade.

A verdade é que a ilustração percorre, nos dias de hoje, um caminho muito mais frutuoso em Portugal. Isso poderá ter a ver com a dificuldade de identificar a ilustração em sítios em que não achamos, à partida, que ela está? Quando olhamos para o cinema, para o teatro, para a música, não é óbvio o lugar da ilustração. Mas a verdade é que ela está lá...

HZ: Uma imagem ilustra sempre qualquer coisa. A ilustração é algo muito abrangente. Embora nós a identifiquemos mais rapidamente como um desenho feito manual ou digitalmente, a verdade é que uma fotografia pode ser uma ilustração. Pode estar presente no nosso dia a dia das formas menos explícitas, nas embalagens do supermercado, num jornal, numa revista, numa capa de um disco ou de um jogo, na roupa.

SB: Sim, em quase tudo. Sempre que tenho algum projeto, ou não, inspiro-me muito naquilo que vejo, no dia a dia, em pessoas que me parecem personagens, em situações ou conversas que parecem retiradas de uma história. Gosto muito de fazer essa observação. Além disso, tenho muita necessidade de fotografar e, agora com o telemóvel, é muito mais fácil experimentar enquadramentos e brincar com as cores

Fala em telemóvel. As redes sociais, sobretudo o Instagram, que se alimenta muito da imagem, obrigam-nos a olhar de outra forma para o mundo. Sentem que isso é relevante no caminho da força da imagem, da ilustração?

SB: Atualmente, qualquer pessoa tem oportunidade de fabricar a sua imagem, a sua fotografia, a sua arte. Antigamente era uma coisa mais restrita. De repente, temos um espaço público mais abrangente. Mudou tudo. Já não temos que ter uma máquina, revelar o rolo, pagar. Qualquer pessoa pode fotografar e divulgar facilmente uma imagem e o facto de haver uma grande aposta na partilha de imagens também contribui para que se aumente a educação visual.

HZ: De alguma forma, em termos de ilustração, somos autodidatas. Nem eu nem a Sara temos um curso de ilustração. Há coisas que se vão estudando, como a forma como vemos o mundo e vamos construindo o nosso vocabulário artístico. Mas tem muito a ver com o que desperta a nossa atenção, desde livros, workshops, cinema, espetáculos, páginas web, redes sociais e o quotidiano.

SB: E não basta uma imagem ser bonita. Tem que transmitir alguma coisa para quem a vai ver ou ler.
HZ: Sim. Há ilustradores, por acaso não é o nosso caso, que têm uma ilustração muito interventiva, que passa uma mensagem muito forte a nível político e social.

Não são ilhavenses, mas é em Ílhavo que vivem atualmente. Sabemos que têm uma forte ligação à Biblioteca Municipal. Como é ser ilustrador neste Município?

SB: O projeto 23 Milhas veio dar continuidade a um trabalho de valorização e divulgação da ilustração iniciado pela Vista Alegre, nomeadamente com a parceria que tem mantido com a Ilustrarte. Com o Ilustração à Vista, sentimos que Ílhavo poderá vir a ser um centro em que se dá importância à ilustração. De repente, acontecem aqui coisas ligadas à ilustração, podemos passar o dia inteiro com ilustradores com quem não teríamos, doutra forma, oportunidade de trocar impressões. Esse contacto e o convívio com pessoas a fazer a mesma coisa que nós, mas coisas tão diferentes, é muito importante. Ílhavo tem crescido muito e tem uma equipa ligada à cultura a fazer coisas muito interessantes. A partir do momento em que apareceu o 23 Milhas, não sei o que esperar mais.
HZ: A Biblioteca de Ílhavo já fazia um belo trabalho com exposições constantes, com oficinas com ilustradores de todo o país, conversas e apresentações de livros. Estas coisas vão educando as pessoas para olharem de outra forma para esta área. Uma coisa é chegar à biblioteca e achar um livro giro, interessante, outra é conhecer a fonte dos trabalhos, ouvir a pessoa que faz aquilo a partilhar o processo. Além disso, temos a Vista Alegre a fazer um excelente trabalho no que diz respeito à dinamização da ilustração.

O que fazem aos vossos trabalhos? Como os levam até ao público?

HZ: Eu costumo fazer exposições, tanto coletivas como individuais, e já ilustrei alguns livros. Tenho uma paixão muito grande pelo livro enquanto objeto e sempre fui criando livros à medida da minha mão. Em 2016, a Mafalda Milhões convidou-me a participar no FOLIO, em Óbidos, e enviei um livro produzido por mim. Desafiou-me a dar um nome à editora e acabei por criar a Zai-zai edições. Divulgo os meus trabalhos na internet e vendo-os em alguns espaços. São livros com poucas edições e feitos totalmente à mão. São livros-objeto. Além disso, estou inserida numa associação cultural ilhavense, a Quinto Palco, que me tem dado oportunidade de ilustrar algumas coisas diferentes. No ano passado ilustrei o livro de um espetáculo para bebés, o “Baloiçar”.
SB: Eu tenho alguns álbuns ilustrados publicados e vou agrupando os meus trabalhos por coleção. Numa altura tenho vontade de trabalhar em determinado tema, noutra tenho necessidade de pensar e trabalhar outras coisas. Houve uma altura em que fiz muitos retratos, sobretudo de mulheres, sempre de frente. É a coleção do limão. Talvez eu imagine todas estas mulheres a beber um copo de sumo de limão de manhã para se prepararem para o mundo (risos).

O que é que vos falta fazer enquanto ilustradoras?

SB: Eu estou sempre a desafiar-me e fico satisfeita pelo simples facto de ir evoluindo, mas acho sempre que preciso de fazer mais. Preciso de trabalhos que me façam sentir realizada e não desistir.
HZ: A única coisa que me falta fazer é continuar.

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