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18-07 ENTREVISTA: João Mendes

A cultura do dia a dia por João Mendes, em entrevista

João Mendes vive na Gafanha da Encarnação e estuda no Agrupamento de Escolas de Ílhavo, a dois ou três serões de estudo de terminar o ensino secundário na variante de Línguas e Humanidades. Já sonha com a Universidade do Minho, onde pretende seguir a licenciatura em Teatro. Tem 20 anos, mas assim que é desafiado a falar sobre o seu percurso na área, em que se tem evidenciado em projetos como o Mar Alegre, o + Palco ou as formações e espetáculos do 23 Milhas que integram a comunidade, não hesita: pisou o palco há 16 anos e soube que era lá que se sentia confortável. João Mendes é um dos muitos e talentosos jovens do Município que se desdobram em atividades extracurriculares e são parte ativa na efervescência cultural ilhavense. Julho é o mês dos jovens: celebremo-los.

Como é que percebeste aos quatro anos que 16 anos depois estaríamos aqui a falar sobre teatro? Qual foi o teu percurso?

Não sei explicar, mas aos quatro anos, quando via um espetáculo, sentia um grande interesse, muita curiosidade, em pisar um palco. Acabei por fazê-lo com o ATL (Atividades de Tempos Livres) e soube imediatamente que gostava muito daquilo. A partir daí, embora com algumas interrupções, continuei a fazer teatro na escola, em palco ou na rua, mas era algo muito sério para mim. Há três anos entrei no clube de teatro Mar Alegre, do Agrupamento de Escolas de Ílhavo, em que a formação em teatro é encarada como elemento essencial para o desenvolvimento integral dos jovens. Foi lá que aumentei os meus conhecimentos. Tinha as bases, o gosto e a vontade, mas no Mar Alegre aprendi a colocar a voz, a estar confiante em palco, a lidar com o público, a trabalhar o texto e, sobretudo, a construir uma personagem. Não tinha noção de que havia tanta coisa que podia ser trabalhada

O teatro tem, logicamente, uma componente muito teórica, além de exigir uma grande aposta na parte prática. Agora que tens mais do que as bases e afirmas que há tanto por trabalhar, com que expetativas te lanças para o mundo aos 20 anos?

O que quero mais saber é como tudo começou, a história do teatro, os primeiros autores, os primeiros atores, como foi e como evoluiu. Penso que se nos inspirarmos na evolução dos nossos antepassados podemos retirar algo de bom para o futuro. A verdade é que cada ator tem a sua forma de representar, de estar em palco, mas acredito que podemos desenvolver-nos a partir das nossas características, sem colocar de parte o que vamos retendo dos outros.

Sentes, portanto, que se conheceres o contexto histórico e quantos mais contextos conheceres, melhor te tornas individualmente?

Sim. Gosto de pensar que posso olhar para os melhores de antigamente e inspirar-me neles para criar o meu próprio método. Seria errado pensar que podia ser para sempre um autodidata como fui durante muito tempo (risos). Tenho esta ideia de que só podemos fazer algo muito bem se olharmos para os que o fizeram bem antes.

É aquela coisa de só se poder ver mais longe quando se está em ombros de gigantes… Nem a propósito, como têm sido os desafios 23 Milhas, de contacto, formação e até participação em espetáculos com companhias convidadas a partilhar processos com o + Palco, e não só, de que fazes parte?

No teatro é sempre bom conhecer pessoas novas. E, como dizia, é muito importante olhar para os outros e não só para nós. Consigo aprender mais quando vejo o outro fazer do que quando sou eu que o faço. Tem que existir esta interação, essa partilha, essa melhoria através das qualidades do outro. Só conhecendo outros e muitos podemos fazer aquilo que considero o mais difícil em todo este processo de construção como atores: conhecermo-nos a nós próprios.

Que questões costumas colocar a atores ou criadores mais experientes que visitam o Município e com quem tens lidado?

Quero sempre saber como começaram. Além disso, gosto de saber como ocupam o seu tempo livre, como gerem os ensaios, que outras coisas ocupam a sua mente além do teatro.

Recuando: sentes que já te conheces a ti próprio?

Ainda não. E penso que o ensino superior vai ser essencial nesse processo. No entanto, a verdade é que posso aprender mais sobre a minha voz, o meu corpo, mas há sempre qualquer coisa que falta. Essa coisa vem com a experiência, com os receios e as dificuldades que vou ter de ultrapassar.

Os receios e as dificuldades são praticamente inevitáveis na vida de um ator, que está sujeito a tantos estímulos, a tantas personagens diferentes ao longo do seu percurso. A construção de personagens, sobretudo aquelas que implicam um maior declive emocional, assusta-te?

Claro que sim. Cada ator opta por construir uma personagem
à sua maneira, estudando a sua história, pensando no que seriam as suas reações, as suas características físicas e emocionais, pondo-se no lugar de quem viveu o que a personagem viveu. Já fiz personagens muito diferentes, tanto entre si como de mim, e tive de descobrir características em mim que nem sequer julgo possuir. Quando fiz a personagem do “Avarento”, na peça “O Avarento, ponto”, com o Mar Alegre, tive que ser bastante egoísta e abstrair-me totalmente de quem sou para poder ser aquele homem, já que não havia nada que nos ligasse.

Participaste, há poucos meses, no espetáculo “Cortado por todos os lados, aberto por todos os cantos”, do Gustavo Ciríaco, na Casa da Cultura de Ílhavo. Como foi fazer parte de algo assim?

Foi estranho, mas sobretudo um desafio. Quando cheguei, percebi logo que aquelas pessoas tinham um pensamento diferente. E ainda bem. Foi diferente de tudo a que estava habituado, até nos ensaios, nos aquecimentos, individuais e não em grupo. Foi o primeiro espetáculo que fiz em que não havia falas e que podia comunicar apenas com o corpo. No início, era muito repetitivo. Andava em círculos na escadaria da Casa da Cultura de Ílhavo e o mais estranho é que nem eu próprio sabia o que estava a fazer. Depois fui percebendo como aquilo funcionava como uma metáfora, como era uma linha e nós só tínhamos que arrastar o público através dessa linha e deixá-los ser livres no seu pensamento e desafiarem-se. Havia uma parte do espetáculo que acontecia num quarto escuro em que muitas pessoas desistiram e isso prova que apesar de não haver falas, havia coisas para sentir. E eu percebo-as. Também tenho medo do escuro e a única maneira de superar isso foi estar em personagem. O teatro também é isso: esquecermo-nos de nós e sermos capazes de fazer tudo.

Dizes que foi estranho, mas um desafio. A verdade é que houve a sensação de que no final do “Cortado” havia ali relações de muito carinho e até proteção, relativamente a vocês, por parte do Gustavo Ciríaco e da sua equipa. Esse apoio, para um jovem que quer ser ator profissional, é fundamental…

Sim. Tanto com o Gustavo e a sua equipa, como com os colegas locais que participaram no “Cortado”, criaram-se verdadeiras amizades. No início foi estranho e havia um silêncio incómodo, mas em pouco tempo, tendo todos o mesmo objetivo, os mesmos gostos, passámos a ser um grande apoio uns para os outros. Foi uma união muito rápida. Já passaram várias semanas e ainda falamos muito. Aliás, o Gustavo convidou-nos para ir a Lisboa ver a estreia do mesmo espetáculo no Alkantara Festival e alguns colegas foram. Eles vieram de facto nessa disposição, de nos ajudar, de nos mostrar que não há limites para o teatro, de nos mostrar novos contextos. Quando alguém é bom, é muito generoso que passe isso a outra pessoa como eles fizeram.

Como é ser um jovem com a ambição de ser ator no Município de Ílhavo?

Tudo o que tem acontecido ultimamente em Ílhavo só me deu ainda mais vontade de ser ator. Há uma diferença grande entre ter como única ambição encher uma sala de espetáculo ou poder trabalhar com cada vez mais artistas e, por isso, cada vez melhor. Em Ílhavo podemos ter as duas. Há cada vez mais pessoas novas em Ílhavo, sempre espetáculos novos, novos públicos, artistas disponíveis para formação. Isso dá muita vontade de continuar. É a prova de que o teatro não está morto. Além disso, o teatro não é só no palco, não é só uma história, também é dança, é na rua, é em qualquer lugar

Até na nossa cabeça.

Também. Em todo o lado.

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