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19-04 ENTREVISTA: Maria Teixeira e Júlia Cavaz

A cultura do dia a dia por Maria Teixeira e Júlia Cavaz, em entrevista

Maria Teixeira reformou-se aos 59 anos e, desde então, aproveita todas as oportunidades que o Município lhe dá para participar em oficinas, projetos comunitários e coisas que não só lhe ocupem o tempo, mas que a estimulem a aprender coisas novas. A antiga costureira de profissão é agora a mulher do cavaquinho, do teatro e da generosidade incontestável e imediata.

É, provavelmente, a pessoa que participa em mais projetos do 23 Milhas...

Maria Teixeira Gosto muito de fazer coisas diferentes e, até aos 59 anos, não tive oportunidade de o fazer. Fui oficial de mesa de basquetebol e essa foi a única actividade extra-profissional que tive. Entretanto, vão surgindo estas oportunidades no sítio onde moro e é impossível não aproveitar.

Costuma ter uma intervenção muito musical nos projetos comunitários em que se envolve. Sempre tocou cavaquinho ou esta é uma experiência nova para si?

MT: Sempre gostei do instrumento. Cheguei a ir passear ao norte com a ideia de comprar um, mas parecia-me tudo demasiado caro, demasiado exigente, sobretudo para uma amadora. Entretanto, fui convidada para monitora da Universidade Sénior e a minha família acabou por me oferecer um cavaquinho. Pedi a um músico de guitarra clássica que me ensinasse um ou dois acordes e isso não só aconteceu, como acabei por aprender a tocar com alguma competência. No festival Rádio Faneca, através da Orquestra da Bida Airada, e no grupo Musiria, em Aveiro, acabei por desenvolver ainda mais esse gosto pelo cavaquinho e a aprender a tocar mas e melhor. Agora, durante o Palheta, no espetáculo Marés, também vou tocar com o Ricardo (Teatro e Marionetas de Mandrágora).

Qual a importância de um projeto como o 23 Milhas no Município em que se vive?

MT: Seria muito bom que a população do Município aparecesse, que fôssemos mais. Penso que existem muitas oportunidades e que são divulgadas e não é o facto de termos outros projetos que nos impede de acrescentar um à lista, ou isso sou eu, que gosto muito de ter coisas para fazer (risos). Está a ser muito gratificante. A Orquestra da Bida Airada marcou-me muito e continua a marcar. Os projetos comunitários com o Graeme Pulleyn, sobretudo O Lugre, eu chorava de comoção com aquilo que estávamos a fazer. Vivi muito aquela peça e foi muito especial.

Já tinha feito teatro ou foi algo novo para si?

MT: Tinha feito coisas mesmo muito amadoras. O que acontece de bom nos projetos em que me envolvo aqui é que estou sempre a aprender coisas novas, cada oportunidade é muito enriquecedora. E bom, ajuda-me a passar o tempo, não nego, mas é sobretudo uma forma de aprender muita coisa a que de outra forma não teria acesso.

E é uma oportunidade de conhecer novas formas de pensar, torna-nos mais disponíveis para o mundo…

MT: É verdade. Aprendi muito neste projeto, no Marés (Palheta). Não fazemos ideia do lixo que fazemos, dos resíduos que bloqueiam os mares e as praias. Foi muito importante quando a Filipa Mesquita (Teatro e Marionetas de Mandrágora) nos falou de tudo isto para nos sensibilizar para esta vertente mais ecológica do projeto.

Trabalha numa empresa de telecomunicações, no setor do atendimento ao cliente, em permanente relação com as pessoas. A relação consigo própria vem quando decide fugir para se ensaiar, um papel que nunca se esgota, e se envolve de corpo (às vezes até demais) e alma em oficinas para as quais alega não ter assim tanto tempo. Mas vai. E é por isso que parte da cultura do dia a dia ilhavense também é dela.

Sempre esteve ligada às artes.

Júlia Cavaz Sim, gosto muito de teatro desde pequena e, sobretudo, desde os 15 anos, quando comecei a fazer parte de grupos de jovens em que trabalhávamos essa parte artística. Quando comecei a ser mais ativa nestes projetos, decidi fazer um curso de iniciação ao teatro, que fiz no GrETUA, A primeira oportunidade séria de fazer teatro depois disso, já praticamente nos 40, foi através de uma oficina no Museu Marítimo de Ílhavo.

E desde então envolveu-se em muitos projetos comunitários do Município de Ílhavo, alguns do 23 Milhas…

JC: Sim, entretanto tenho ficado atenta, acabámos por ficar, eu, o meu marido e o meu filho, envolvidos no meio, e tanto chamamos como somos chamados para participar. Tem sido uma excelente oportunidade não só para experimentar coisas novas, mas também para conhecer novas Companhias e companhias.

Para contactar com novos artistas e outras dimensões de trabalho?

JC: Sim, sobretudo isso. Esta oficina de que estou a fazer parte no Marés (Palheta) foge muito à minha zona de conforto. Nunca tinha feito nada relacionado com teatro clown, mas foi por isso que decidi inscrever-me nessa. Gosto muito de me divertir, mas acho realmente difícil fazer de palhaço. Acabou por ser um desafio muito grande, que me levou a descobrir ferramentas novas no meu corpo e na minha capacidade de o controlar.

Em que outros projetos participou?

JC: Participei desde o início no Tá Mar, no Museu Marítimo de Ílhavo, bem como noutros projetos orientados pelo Graeme Pulleyn. Tenho participado em coisas de dança, circo, um pouco de tudo.

Que experiências retira destes projetos?

JC: Estes momentos que dedico a estes projetos são para sair do mundo profissional, a que chamo o mundo lá fora. O que costumo contar aos outros, aos que ficam de fora desse mundo, é mais sobre as pessoas que conheço, pessoas que também vão para ali para fugir, pessoas que não têm ligação profissional a nada daquilo, mas que têm, cada um, uma história para contar.

Isso acaba por ser enriquecedor a vários níveis…

JC: Totalmente. Há uma parte muito humana e uma parte mais formativa. Aprendi a fazer coisas que não esperava ter interesse em fazer, coisas físicas, sobretudo. Houve uma experiência que o encenador fazia algumas exigências acrobáticas, muito diferente da dança, e que me levou muito para além do que esperava de mim. Além disso, cada artista convidado leva-nos a fazer algo de forma diferente. Não somos os mesmos antes e depois de um projeto destes.

Como é que sente o 23 Milhas em Ílhavo?

JC: É um projeto fantástico. Traz muitas coisas novas à comunidade, faz um trabalho muito enriquecedor com as pessoas. Tenho pena que na Gafanha da Nazaré, por exemplo, as pessoas ainda não se envolvam muito, mas pelo que vejo é algo que tende a evoluir e isso nota-se pelo Palheta. O 23 Milhas têm trazido muitas coisas. O que eu sinto, neste momento, é que não tenho tempo para fazer todas (risos). Mas é um projeto muito interessante, com uma linha de continuidade muito responsável. Quase que consigo sentir que é verão, outono ou primavera só pela programação.

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