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A cultura do dia a dia por Óscar Graça e Ricardo Panela, em entrevista

Óscar Graça e Ricardo Panela são ilhavenses, mas não é apenas isso que os une: estão ambos na música, de corpo e alma, cuidados redobrados nessa parelha imbatível que catalisa a criação e, se o estão, é porque a família deu o primeiro passo e eles foram atrás. Arrancaram em Ílhavo e viajaram para novos mundos, mas o que os traz a esta página é o regresso a casa: durante este trimestre, atuam no Acorda à Tarde, no Laboratório das Artes do Teatro da Vista Alegre.

Como é que iniciou a formação artística?

Ricardo Panela: Começou tudo por causa dos meus pais, que me ofereceram um piano eletrónico no Natal (que eu ainda tenho e que ainda uso para estudar quando vou a casa). Esse foi o impulso para começar os meus estudos em música, na Academia Anacrusa, em Ílhavo, mas em piano. Alguns anos mais tarde, segui para o Conservatório de Música de Aveiro, onde comecei a estudar canto. Óscar Graça: Incentivado pelo meu avô materno, comecei a estudar música com seis anos de idade. Inicialmente com uma professora particular e, a partir dos dez, no Conservatório de Música de Aveiro Calouste Gulbenkian. Já com quinze anos de idade, comecei a receber alguma formação de jazz - primeiro sob a forma de workshops e depois com aulas regulares (Escola de Jazz do Porto e Hot Clube de Portugal). Apesar de se ouvir, desde sempre, muito jazz lá em casa, a possibilidade de estudar este estilo só se colocou nesse momento, sendo o papel de Fernando Valente essencial ao ajudar a abrir as portas do Conservatório a esta música. Em 1998, ingressei na licenciatura em composição na Escola Superior de Música de Lisboa, curso que viria a concluir em 2002. Continuei a tentar “ensinar-me” jazz de forma autónoma até que, em 2005, aproveitei uma bolsa para ir estudar para a Berklee College of Music em Boston, onde estive durante dois semestres.

O que é que cataliza a criação?

RP: Essa é uma pergunta difícil. Acho que o principal é não nos esquecermos do aspeto humano da música (tal como nas outras artes). São um produto humano, criado (e posteriormente interpretado) por uma pessoa, como nós, cuja experiência de vida os levou a produzir arte com um determinado significado. Nesse sentido, acredito que após uma formação técnica adequada, aquilo que mais deve catalisar o acto de fazer arte, é precisamente o ato de viver e experienciar a vida em todas as suas dimensões.

OG: A criação musical demonstra-se em múltiplas formas. Embora sejam as fronteiras frequentemente difusas, diria que a composição e a performance são dois dos mais visíveis vértices. A composição e a performance conjugam-se na improvisação e, se para estudá-la, os constantes desafios performativos do quotidiano servem de catalisadores no processo criativo, já na vertente composicional, funciono muito “por fases”: há fases em que a obra é uma resposta a uma encomenda, outras em que muitas vezes a borracha contradiz o lápis com o fantasma da gaveta a pairar, e aquelas em que dormir não é um opção até surgir a barra final.

Quais são os desafios desta área?

RP: Todos os músicos passam, de uma maneira geral, pelos
mesmos desafios que, na atual conjuntura económica, a nível mundial, se tornam mais difíceis de superar. Falo, obviamente, das oportunidades de trabalho que, por vezes, podem ser extremamente escassas. Fora isso, e isto é um problema que afeta mais os cantores, temos também que lidar com o facto de o nosso instrumento ser o nosso corpo e, por isso, temos que ter mais cuidados com a nossa saúde, já que uma gripe pode significar um cancelamento e uma vez que, infelizmente, a proteção laboral ainda não chegou aos artistas, cancelar uma performance implica uma perda total de cachê. Ainda neste aspeto do nosso instrumento ser parte do nosso corpo, temos também que lidar com todo o processo de envelhecimento que, na maioria dos casos, implica um refazer técnico a cada 10 anos e a consequentes mudanças no repertório. No fundo, é um trabalho e uma formação que nunca acabam.

OG: Trabalhar no meio da música pode ser desafiante por uma série de razões. As contextuais, relacionadas com as condições económicas do nosso país e com a parca educação cultural disponibilizada à nossa gente, resultam numa dificuldade de fazer determinada música chegar aos ouvidos das pessoas. Existe um exacerbado culto da imagem em detrimento daquilo que sobretudo interessa e diferencia na música - o som! Reportando-me àquilo que me trouxe a este meio artístico, creio que os principais desafios consistem em manter a energia, direção e enfoque sempre num nível o mais alto possível, e numa constante re-invenção - porque implica desprendimento (quase ódio) em relação à zona de conforto.

Como é que olhas para a dinâmica cultural atual em Ílhavo?

RP: Isto não sou a bajular, nem nada que se pareça, mas o 23 Milhas foi a melhor coisa que aconteceu a Ílhavo nos últimos tempos, em termos de dar às pessoas acesso a uma programação cultural extremamente variada e de qualidade. Eu não sei se a população está completamente ciente disso, mas a verdade é que Ílhavo neste momento tem uma oferta cultural ao nível das principais cidades em Portugal, tanto em termos de variedade de oferta, como ao nível da qualidade. Tomemos por exemplo a excelente Orquestra XXI, dirigida pelo Dinis, que foi recentemente nomeado Maestro Assistente do Monteverdi Choir and Orchestra, uma instituição musical da mais altíssima qualidade a nível mundial. Eu cresci em Ílhavo e estive na cidade até ir para Londres e nunca, até agora, tivemos este nível de qualidade de forma regular. Eu já vivo em Inglaterra há oito anos e posso afirmar, com toda a segurança, que Ílhavo, neste momento, tem uma dinâmica cultural ao nível de cidades inglesas de médias dimensões, como Brighton ou York.

OG: Infelizmente não estou em Ílhavo com a regularidade com que gostaria e, quando estou, quase sempre em “visita de médico”. Não obstante, vou acompanhando a programação cultural e congratulo-me com a diversidade e regularidade que tem vindo a demonstrar. Nos últimos dois anos estive mais próximo da iniciativa “Milha” que é de louvar pela interação criada entre músicos e grupos aparentemente afastados a nível estilístico, num contexto que é de facto uma festa!

Expectativas para o espetáculo no Acorda à Tarde?
Como é tocar em “casa”?

RP: Estou muito contente de fazer este concerto com o Nuno, que é um pianista extraordinário e dos melhores acompanhadores neste país. Deixa-me particularmente contente fazer um programa que, pessoalmente, me é muito querido porque gosto mesmo imenso destas canções e não tenho assim tantas oportunidades quanto isso de as executar. Mas, o que torna o concerto mesmo especial para mim, é que foi no Teatro da Vista Alegre que, há mais de 25 anos, tive pela primeira vez algum género de performance em público numa festa da Academia de Música. Tanto tempo e vários países mais tarde, é mesmo um verdadeiro regresso a casa, que me deixa muito contente.
OG: Como é algo que faço com pouca frequência, apresentar-me a solo é um desafio que muito me entusiasma. Apresentei o primeiro esboço deste conceito em março de 2018 no Hot Clube de Portugal e esta nova iteração vai permitir solidificar algumas ideias e afinar abordagens. O facto de ser em casa traz sempre um toque especial, pela beleza do sítio em si, pelas caras conhecidas que espero rever e tentar alcançar com a música.

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