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A cultura do dia a dia por Sofia Marques e Nuno Nolasco, em entrevista

Se fosse banda sonora de um filme, a música de mema. seria a de uma história de uma pessoa muito triste, mas que tenta “dar a volta” voltando a casa. A filha pródiga. Ela, Sofia Marques, cresceu em Ílhavo, deu a volta por aí, voltou para fazer um disco de sal com instrumentos da Beira Litoral. O disco sai em janeiro e ela atua na Milha em novembro. Nuno Nolasco começou pela televisão, mas é nas artes performativas que se sente em casa. Percebeu que não era só em cima do palco que fazia sentido, interessava-lhe a cena teatral a nível estético. Encontrou a encenação, trabalhou como assistente de Carlos Pessoa e foi com ele, no Teatro da Garagem, que começou o seu trabalho de formação com a comunidade. Em Ílhavo, além de uma residência artística, dará uma formação ao grupo de teatro + Palco.

Como começou o teu percurso na música?

Sofia Marques Ainda em pequena, com cinco ou seis anos, comecei a aprender orgão e mais tarde quis aprender a tocar guitarra. A minha família sempre teve essa veia muito musical. Da parte da minha mãe, todas as minhas tias cantavam e algumas estudaram no Conservatório. Isso, aliado ao prazer natural que já sentia, impulsionou a minha vontade de aprender, trabalhar na área e desenvolver outras competências associadas. Acabei por começar também a compor, a escrever poesia e foi assim que nasceram canções.

Estiveste fora durante alguns anos, fizeste outras coisas, regressaste à música e a ponderar o regresso também a casa. “Mema” significa coisas diferentes em diferentes idiomas. Pode ser tonta, repetitiva, pode ter a ver com memória se relativo a memo. Pode ser muitas coisas, pelo que lemos. Isto quer dizer que estás a partir de muitos sítios ou queres ir para muitos lados ou as duas coisas?

SM Estou a partir de muitos sítios. Eu olho para mim e, dentro de mim, existem várias camadas. O que eu quero dizer é por vezes é sério, outra vezes estúpido, pode ser do meu passado ou do meu eu reinventado. Parto de muitos sítios, sim.

mema. tem a ver com complexidade e diversidade. Claro que há um ponto de chegada, até porque as coisas têm de ser minimamente coerentes.

Falando em pontos de chegada. Regressaste a Ílhavo de “Cidade de Sal” na mão. Trazes uma missão contigo?

SM Tentei muito, neste disco e nos instrumentos que utilizei, ir buscar tradições a toda a Região das Beiras. Da Beira Litoral, sobretudo. De certa forma, é uma ode a Aveiro, à região de Aveiro,a Ílhavo, a esta zona à beira-mar, mas é também representa um ciclo: o sal tanto pode arder como conservar, tem propriedades antissépticas. É um pouco como estares num sítio, completamente destruído e perdido, mas poderes voltar ao ponto de origem para te restaurares.

E qual é a tua relação com este ponto de origem que é Ílhavo?

SM Eu cresci aqui. Fiz aqui a escola completa desde os seis anos. Foi aqui que aprendi música, que fui desenvolvendo o meu caráter, que fiz amigos, que cresci.

E, além de teres crescido em Ílhavo, Ílhavo tem crescido em ti?

SM Sim e isso é algo que me tem surpreendido pela positiva. Eu sempre fui muito desligada da cidade, mas quando voltei em janeiro não a reconheci. Uma cidade que é de repente mais dinâmica a nível cultural, algo de que eu me queixava quando era jovem e vivia aqui. Faltava burburinho, concertos, tertúlias, teatro, convites para pensar. Faltava muito essa vertente e, quando regressei, isso surpreendeu-me: a nova vida da cidade. É muito entusiasmante o trabalho que o 23 Milhas está a fazer porque a questão não é só a de haver mais coisas para fazer, é o que há para fazer. O que sempre senti quando vivia cá é que estávamos muito dispersos, segregados até. Acho que estes projetos que vocês têm posto em prática por cá nos convidam a juntarmo-nos, a conhecermo-nos. É a cultura que permite estes encontros.

Relativamente ao teu concerto na MILHA, apresentas o teu disco, totalmente em português e composto e produzido por ti. O que esperar?

SM Eu acho que vai surpreender, até porque nunca me apresentei dessa forma às pessoas. A minha música é um pouco melodramática e se calhar tem muitos elementos, não só de eletrónica, mais orquestrais, de grande impacto. Em cima do palco vai ser tudo muito minimalista: eu e um baterista. E depois o público.

És modelo, ator, encenador e tens dado passos cada vez maiores no serviço educativo. A formação é a tua nova descoberta?

Nuno Nolasco No Teatro da Garagem, havia um clube de teatro para crianças, outro para adolescentes e outro para adultos. Fiquei responsável pelo grupo de adolescentes.
Fui tendo algumas experiências, em vários pontos do país, com a comunidade, e ao longo desses projetos percebi que a faixa etária em que encontrava mais eco era a dos adolescentes. Por isso, e porque fazia sentido, acabou por surgir um grupo a partir dos jovens da Garagem.

Porque é nos adolescentes que encontras terreno ainda fértil?

NN Tem a ver com uma frescura, com um sentido de liberdade que tu reconheces nas crianças e que ainda existe nos adolescentes. Não existem juízos de valor ainda, mas existe uma vontade, uma curiosidade. Claro que há alguns muros sociais que eles já construíram, mas para lá desses muros consegues chegar a sítios muito dirigíveis. Além disso, tem a ver com uma questão de empatia.

Dá-me imenso gozo dirigir um grupo e sentir que tenho a sensibilidade de encontrar o diálogo certo com eles.
E o teatro tem esse lugar terapêutico.

A Sofia menciona a cultura, a arte, como um ponto de encontro privilegiado. É por aí?

NN Aquilo que move uma sociedade vem sempre da cultura e a cultura tem de estar sempre aliada à educação. Para isso, têm de existir estruturas que promovam isso. Imaginar-me a crescer, adolescente, em Ílhavo, com um projeto como o 23 Milhas é completamente diferente.
A verdade é que quando existe essa componente formativa, quando existe um projeto que fomenta as artes performativas, efetivamente promove-se o encontro e o diálogo. Um diálogo que até pode estar colado ao entretenimento, mas sempre com um convite ao pensamento.

Como será a formação com o +Palco?

NN Quando trabalhas com a comunidade, o máximo que podes fazer é passar a tua abordagem, que é pessoal e neste caso transmissível. A mim o que me interessa é perceber as pessoas, porque é que estão ali, porque escolheram aquela formação. De resto, trabalho muito com aquilo que as pessoas me dão. Serão sobretudo exercícios de criação de matérias, exercícios de palco, de desinibição. Vamos usar a individualidade de cada um para abordar a sua própria matéria. O que é que nos torna únicos? Como é que nos tornamos matéria cénica?

We are Not Penelope. O nome da vossa residência, a rejeição do nome de uma mulher que simboliza uma espera inabalável pelo homem que ama. E nós, neste momento, já não estamos dispostos a esperar pelo amor?

NN Este vai ser sempre um tema do momento.
Mas sobretudo agora, que começas a ter movimentos anti-julgamento, anti-monogamia, que as pessoas começam a questionar os próprios limites, isto é um tema. E numa época em que tens qualquer pessoa à distância de uma aplicação, já não esperas uma carta, já não esperas uma resposta, o tempo é muito rápido e existe esta liberdade, repentina, de fazeres tudo o que queres, como quiseres, com quem quiseres. Será que com tudo isto, todas estas interacções, ainda é possível amar para a vida? Ter uma relação monogâmica?

E para perceberes isso, vais falar com a comunidade ilhavense. E não só.

NN Sim. E estamos a falar de uma terra em que as pessoas esperavam, têm essa história da espera, da saudade, da resignação. Por isso conto encontrar testemunhos importantes no sentido de perceber o que leva uma pessoa a esperar outra. Se é sobre amor. Se é sobre fidelidade. Fizemos uma primeira abordagem deste espetáculo em Itália, numa cidade com uma população altamente machista, onde nasceu um dos outros criadores do espetáculo, vamos a Ílhavo e vamos a Córdoba, uma cidade com uma influência árabe gigantesca.

Mas o título já é a vossa resposta? Ou é só mesmo um ponto de partida?

NN Nós achámos que não éramos capazes de esperar. Mas depois de fazermos os primeiros esboços, já achamos que talvez sejamos capazes de esperar. E isso é muito engraçado.

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