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O MODERNISMO DE ÍLHAVO com o arquiteto João Paulo Rapagão

É fácil encontrar detalhes do modernismo nas ruas do município de Ílhavo, do centro à Costa Nova, em direção às Quintãs ou no Vale de Ílhavo. Mas há obras que se destacam pela originalidade do seu desenho, não se assemelhando a nada mas reportando para o seu contexto. Querendo desbravar o moderno de Ílhavo, a Talkie-Walkie logo convidou o arquiteto João Paulo Rapagão, sabendo do seu entusiasmo pelas inúmeras expressões deste movimento. Descobrindo tantas singularidades locais, o arquiteto Rapagão orientou duas visitas do Olhar por Dentro, selecionando três das obras visitadas para nos escrever este artigo sobre “a primazia e a etnografia da arquitetura ilhavense”.



João Rapagão é arquitecto pela Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa desde 1988 e docente na Universidade do Minho de 2002 a 2008 e na Universidade Lusíada desde 1997.  Preside ao Conselho Directivo Regional do Norte da Ordem dos Arquitectos de 1996 a 1998 e integra o Conselho de Administração da Fundação para o Desenvolvimento da Zona Histórica do Porto de 2000 a 2002. Integra júris em concursos e prémios de arquitectura. Orador em diversos congressos e encontros, exerce arquitectura desde 1988.  É autor de ensaios em Ricardo Vieira de Melo – Habitar e em Living in Porto - Floret Arquitectura. Autor e editor do Mapa de Arquitectura Arménio Losa e Cassiano Barbosa e do Guia de Arquitectura do Porto 1942|2017, comissaria, com Inês Moreira, o Open House Porto 2018.

*  Agradecimentos a Daniela Sá, João Senos da Fonseca, Lisete Amador e Sofia Senos.

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Seleccionadas para um percurso pela arquitetura do Movimento Moderno em ílhavo, as três casas constituem três abordagens distintas de um tempo de ideologia racionalista e, paralelamente, regionalista.


Atentas às máximas de Walter Gropius, ensaiadas pela Bauhaus, e às de Le Corbusier, consolidadas nos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna, encontramos em Ílhavo expressões funcionalistas miscigenadas com uma erudição regional com raiz vernacular e popular.

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© João Rapagão

A marginalidade e originalidade territorial e, cumulativamente, a aventura na Terra Nova, com outras culturas distintas das europeias, põem Ílhavo entre uma escala regional, marcada pelo dia-a-dia na Ria de Aveiro, e uma escala global. Importam-se gostos com imagens que contaminam e criam uma genealogia social e cultural local distinta das generalizadas.


As três obras visitadas abrangem um espectro de influências eruditas, com um intervalo amplo e riquíssimo do ponto de vista da cultura arquitetónica e etnográfica.

Um dos limites do intervalo aponta para uma exposição dos valores de uma modernidade cosmopolita informada - Casa Manuel Lavado Corujo - e o outro para uma expressão vernacular conotada com os palheiros locais – Casa de Férias João Félix. Entre ambos encontramos a Casa João Senos da Fonseca, objeto de desejo na transição dos dois universos descritos.

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© João Rapagão

A Casa Manuel Lavado Corujo (1960), da autoria do Arq. António Sarrico dos Santos, está implantada em eixo de afirmação e expansão da então vila de Ílhavo, local privilegiado para a exibição de uma modernidade firmada e abastada dos capitães das viagens no Atlântico Norte.



A casa destinada a Manuel Lavado Corujo é assinada pelo Arq. António Sarrico dos Santos, responsável por diversas obras de escala pública - antigo Mercado Municipal de Ílhavo - e privada - Casa Capitão, entre outras - em Ílhavo. A casa revela um desenho culto capaz de conciliar a modernidade e a originalidade local com uma aparente excentricidade e singularidade plasmada no cobogó exposto no alçado principal e na cobertura que sobrevoa o terraço.

Importa evidenciar a promenade architecturale que atravessa a casa entre o passeio público e a cobertura, alternadamente interior e exterior, transversal e longitudinal à planta. Importa referir ainda o uso de cerâmicos a que não é estranha a proximidade da Vista Alegre e a prática usual dos arquitetos desta geração, de integração das artes plásticas nas obras públicas e privadas.

Aos cinq points de larchitecture nouvelle enunciados por Le Corbusier e Pierre Jeanneret, juntam-se aqui imagens difundidas pelas publicações disponíveis na data - a nacional Arquitetura e a internacional L’Architecture d’Aujourd’hui. A nacional, tutelada por uma geração de arquitetos portugueses difusores do Movimento Moderno, plural, capaz de publicar e alargar os modelos aos nomes emergentes da América do Sul e do Norte, respectivamente, do Brasil e dos Estados Unidos da América. A internacional, interessada em consagrar arquitetos singulares de vanguarda, dedica edições, por exemplo, a Oscar Niemeyer e a Richard Neutra, relacionando-os com outros correligionários locais capazes de criar movimentos com genealogias comuns.

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© Daniela Sá

O segundo exemplo visitado é a Casa de Férias João Félix (1966), da autoria do Arq. Pedro Corujo Bernardes, está localizado na Costa Nova e relacionado com a Ria de Aveiro.



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A composição e a organização interiores, marcadamente depuradas e identificadas com o tema Casa de Férias, são originais e influenciadas pela investigação e apresentação do Concurso para Obtenção de Diploma de Arquiteto (CODA) desenvolvido pelo autor na Escola Superior de Belas Artes do Porto em 1963, com Uma Habitação em Aveiro marcadamente funcionalista.

A conceção e materialização arquitetónica concilia as premissas regionalistas e racionalistas reforçadas pela flexibilidade e versatilidade de usos temporários intrínsecos ao tema. A ideia associa ainda arquitetura e estrutura, da matriz das fundações às distribuições dos compartimentos, a partir de uma circulação central. A aproximação exterior é sequencialmente quebrada e elaborada, entre a cota do passeio público e o terraço que antecede a entrada, ampliando a sala e abrigando o automóvel.     

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© João Rapagão

A terceira casa visitada e integrada na rota elege a Casa João Senos da Fonseca (1976), assinada e habitada pelo próprio, engenheiro mecânico, especialista em engenharia naval, o que explica o domínio tecnológico e prático no universo dos motores e a atenção aos pormenores das microarquiteturas que são as embarcações. A conceção e pormenorização da casa acusa a aptidão do autor para o desenho técnico e lógico presente em todas as escalas. Surge, assim, um habitar mínimo aparentemente temporário marcado pela funcionalidade e proximidade dos usos, concebido como uma embarcação.



À depuração interior opõe-se a expansão exterior expressa nos vãos e na cobertura triangulada e inclinada que lembra o usonian style de Frank Lloyd Wright, termo associado à experiência única de inserção e apropriação paisagística perante um horizonte imenso. A lareira é o centro da composição do espaço e reunião da família. Uma escada transversal liga o mezzanino de acesso a quartos ao pé-direito duplo sobre a sala triangular pontuada e dominada pela verticalidade da lareira e diferenciadamente iluminada e relacionada, a Norte e a Sul, com a Ria da Aveiro.

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© João Rapagão

A individualidade e a identidade da arquitetura ilhavense descrita, presente nas três casas, claramente gerada pelos antecedentes locais e culturais, persiste.


Encontramos, hoje, arquitetos contemporâneos fiéis a esta genealogia, em diversas gerações, como Ricardo Vieira de Melo e os irmãos Sofia e Ricardo Senos. Reconhece-se, assim, na singularidade regional, a qualidade de uma genealogia com expressão nacional e internacional.

João Rapagão

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e porque o conhecimento ocupa (bom) lugar...



O arquitecto António Sarrico dos Santos assinava, por vezes, Sá Rico!

A Casa Manuel Lavado Corujo, nome do proprietário original, é também apelidada como Casa do Bacalhau ou Porta-aviões. Ainda que a sua atual proprietária, Lisete, prefere chamar-lhe bijouzinho, pelos apontamentos peculiares do interior e exterior da casa. Existiu um espelho de água sob a varanda térrea voltada para a avenida e, lateralmente, um painel cerâmico no Alçado Sudeste a anteceder a entrada da garagem que era, antes, sob a casa. Já o terraço é constituído por uma floresta de pilotis que sustentam os planos angulares que se vêem da rua. Esses entrelaçados criam um movimento semelhante ao encontrado nas pinturas de Wassily Kandinsky - Decisive Pink, por exemplo -, reforçado e conformado pelo tapa-vento bordeaux de planta curva Bauhausiana ou Corbusiana.

João Félix solicitou e utilizou como modelo uma casa existente em Ofir, chegando a recorrer ao mesmo construtor para construir a sua casa de férias na Costa Nova.  Reportando para a ideia dos palheiros (ver artigo), esta obra permaneceu isolada sobre as dunas da Costa Nova durante mais de uma década.

O arquiteto Pedro Corujo Bernardes desempenhou funções na Câmara Municipal de Aveiro.

A Casa João Manuel Senos da Fonseca tem várias peripécias para contar. Entre elas, a excentricidade da localização e orientação da sanita, para que o utilizador, sentado, observe a ria. Esta casa, que não foi sempre amarela, mantém, ainda, em apontamentos interiores o original bordeaux.

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