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A cultura do dia a dia por Anabela Mateus e Paula Gomes, em entrevista
O +Palco arrancou em 2016, numa parceria com o projeto 23 Milhas e junta, para já, cerca de duas dezenas de jovens numa formação que é muito mais que teatral. Na proa,estão as professoras Anabela Mateus, de Educação Física, e Paula Gomes, de Educação Visual, ambas docentes na Escola Básica 2, 3 José Ferreira Pinto Basto, que cumprem agora o sonho de reinventar um projeto que desenvolvem há já alguns anos, com mais palco, mas não só.
O que é o +Palco e como surgiu?
O +Palco é um projeto de formação de teatro para jovens com idade superior aos 13 e até aos 18 anos. Há muito tempo que desenvolvemos um projeto de teatro na escola em que somos professoras [Mar Alegre], e sempre nos deparámos com jovens que seguem os seus estudos noutras escolas e querem dar continuidade a esta atividade connosco, sendo que, até agora, existia um fosso nesta concretização. Nesse sentido, os miúdos e os próprios pais pediram -nos muito um projeto como este e, por sua vez, o Centro Cultural de Ílhavo, atual Casa da Cultura de Ílhavo (CCI), conhecia o nosso trabalho, até porque nascemos juntos, há cerca de dez anos, e temos vindo a desafiar -nos mutuamente ao longo deste tempo. O nível de qualidade dos trabalhos que apresentamos tem vindo a crescer, também porque sabemos que estamos numa sala muito importante na região. Depois, e felizmente, os nossos miúdos querem sempre mais e mais e gostam muito do que fazemos juntos.
São os próprios jovens que se voluntariam?
Sim. Embora já estejamos agrupadas também com a Escola Secundária de Ílhavo, isso no âmbito do Mar Alegre, há muitos alunos que optam por fazer o 3.º ciclo noutras escolas da região e o +Palco é a oportunidade que faltava para prosseguirem o seu percurso connosco.
O +Palco traz um desafio maior, mas também aumenta as possibilidades…
A verdade é que, já quando criámos o “Mar Alegre”, uma das nossas premissas foi sempre não fazer o típico “teatro de escolinha”, tão pouco no espaço tradicional na escola, mas sim levar os nossos jovens para um palco real e poder fazer mais do que ensiná -los a representar. Aquela que é a atual CCI sempre nos abriu a porta, tornou -se uma espécie de segunda casa e, dar este passo em frente, assumir o “+Palco” só faria sentido em parceria com o também recente 23 Milhas, muito nesta lógica de cultura do dia a dia que este projeto pressupõe. Além disso, deixámos de ser duas professoras que dinamizam um projeto, para passarmos a enriquecer a formação dos nossos alunos com as experiências de outras pessoas, atores, encenadores, músicos, dançarinos, assistentes de produção, que visitam os espaços culturais do município com os seus trabalhos.
Isso é ainda mais que palco
É importante que isto não seja só sobre o trabalho de ator. Queremos que os nossos alunos questionem a luz, o palco, a cenografia, os figurinos, no fundo, todo o trabalho que envolve a conceção de um espetáculo. Mais importante que o resultado final é o processo, tudo o que eles vivenciam durante a formação e os momentos de contacto com os profissionais e a realidade da área são oportunidades únicas que lhes propiciam grandes experiências. Estes jovens já assistiram a algumas peças e, embora não tenham feito formação com os artistas, mas as conversas que puderam ter com eles no final das exibições, convidou- -os a pensar os espetáculos de uma outra forma. Além disso, esta é uma forma de criar públicos, de os ensinar a ver outras coisas, não os cingir ao que já conhecem.
O que é bom até enquanto cidadãos.
Absolutamente. Até porque há miúdos que a primeira vez que viram um espetáculo foi agora, connosco. E nós notamos que, entretanto, já são os miúdos a desafiarem os pais a ir com eles ao teatro. Todos os associados do +Palco têm acesso gratuito a qualquer peça de teatro nos quatro espaços culturais do município e eles têm aproveitado isso. Algo que também nos acontece, e que é muito engraçado, é que os alunos nos dizem que, agora que têm uma formação diferente, não se limitam a ver a peça, também questionam a luz, o posicionamento dos atores, o som. Estão mais alerta e isso é fantástico.
Sentem que estes jovens se tornaram cidadãos mais curiosos?
Claro. Por exemplo, terminámos agora aquilo a que chamámos o nosso ciclo de Shakespeare, em que cada jovem foi desafiado a fazer um texto seu a partir do texto original da história de Romeu e Julieta e, só isso, proporciona -lhes um enriquecimento muito intenso quer a nível social, quer a nível de escrita e de leitura. E fizeram -no com uma vontade e criatividade incríveis.
E o futuro?
No futuro, o projeto irá evoluir, muito provavelmente, para algo relacionado com o associativismo, sobretudo para dar novas respostas. Não queremos ser só mais um grupo de teatro. Queremos incluir fotógrafos, dançarinos, artistas plásticos, ilustradores, arquitetos, músicos, aproveitar a parceria com o 23 Milhas e o contributo que estamos dispostas a dar para complementar a oferta na região.
Está prevista alguma apresentação final deste primeiro ciclo de +Palco?
Esta é uma formação que, embora seja longa e abrangente, terá os seus momentos altos, até porque também é interessante que os nossos alunos tenham oportunidade de mostrar o que fazem. Existirá, muito provavelmente, uma demonstração pública no Festival Rádio Faneca e, mais à frente, no final deste primeiro ciclo, já em julho, no âmbito do Marolas, um trabalho final que já está a ser desenvolvido e cujo ponto de partida é o Farol da Barra - também para não fugir à inspiração do 23 Milhas. Neste momento, os alunos estão na fase de pesquisa, têm conversado com pessoas ligadas ao tema e estão muito entusiasmados. Mas o resultado mais importante é termos conseguido que eles percebam que o teatro é muito mais que fazer de conta, é sentir, respeitar o outro, estar em equipa, é muito mais que aquilo que parece.
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