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2026 ENTREVISTA 2º Trimestre: Fernanda Botelho

Hoje desabrochou uma papoila (...) ou tu te deslumbras agora ou amanhã já não a vês

Se alguém pode comprovar a transcendência das plantas e defendê-la com unhas, dentes e mãos na terra, é Fernanda Botelho: herbalista, escritora, educadora ambiental, deslumbrada com as plantas, os livros e as árvores que vê pela janela. Fernanda Botelho vive no presente, coisa que as plantas lhe vai ensinando diariamente, e tentámos estar com ela aqui e agora. Falou-nos da inteligência das plantas, do laranjal do avô, do talhão de um senhor em Braga que curou uma depressão ao ver crescer as favas que plantou e fez-nos olhar, também, pela janela. O agora é tudo.

Num jardim morre-se muito, mas um jardim é sempre um princípio e, quando criámos o Planteia, pensámos muito nessa ideia de início e fim. Um jardim está sempre para acabar, mas também sempre para começar.

Fernanda Botelho: É uma metamorfose constante, é a prova mais clara e mais óbvia, mais visível, de que nada existe para sempre e de que tudo está em constante transformação, metamorfose, transcendência. Tudo vive nesse processo constante de mutação. Desde a semente até à flor, à semente outra vez, tudo vive esse processo constante e isso é muito bonito de observar e ensina-nos muita coisa. Aprendemos também a relativizar tudo. As plantas e os jardins ensinam-nos isso, que nada é eterno, tudo é efémero. Iremos, com guerra ou sem guerra, viver sempre esta efemeridade de tudo o que existe. E portanto, num jardim, vive-se isso muito intensamente.


Precisamente porque estamos a pensar a transcendência de forma muito abrangente, e nesta agenda pensando naquilo que é o aparecimento e a existência de uma flor, interessa-nos a visão da Fernanda sobre as plantas: que as vê precisamente como algo que transcende.

FB: Há muita generosidade, muita democracia num jardim. Porque as plantas que morrem também dão lugar a outras plantas. Há plantas que são anuais, e essas plantas já não voltam no ano seguinte, mas é como se cedessem o seu lugar para que outras possam vir. Há esse saber existir em família, em coletivo. Também há plantas que repelem as outras. E as raízes vão, vão, vão por aí fora e ocupam tudo. Há aí muitas a que as pessoas gostam muito de chamar daninhas, palavra que detesto quando aplicada às plantas, porque daninho é uma coisa que causa dano e o mais daninho de todos os seres é o ser humano. Tanto que as plantas podem causar dano às estruturas humanas, porque nós vemos sempre as coisas de um ponto de vista muito antropocêntrico e não é fácil sair desse paradigma, desse antropocentrismo. Que tudo é feito e pensado a partir de um ponto de vista do ser humano, da inteligência humana. Mas sobre a inteligência das plantas, elas têm uma forma de agir, de pensar, de sentir, tomam decisões. Não têm um sistema nervoso semelhante ao nosso, mas reagem a impulsos elétricos, tal como nós reagimos. Ando a ler um livro -  As comedoras de luz da Zoë Schlanger – e as plantas têm essa capacidade de fazer isso, comer a luz, e a partir disso desenvolver um tipo de folha, um habitat, um território. E essa luz, a planta tem a capacidade de a transformar em açúcares, que depois serve de alimento para si mesma. Às raízes, ao caule, ao desenvolvimento da flor que é uma coisa altamente sofisticada e portanto tudo na planta são estratégias de sobrevivência muito sofisticadas. Porque elas não podem sair do lugar. Nós podemos movimentar-nos, elas estão no mesmo sítio, têm de desenvolver estratégias de continuação da espécie, de reprodução, e portanto são seres altamente avançados, até diria que mais do que nós, seres humanos.


De que formas?

FB: Elas mudam de cor, mudam de cheiro, mudam de forma para poderem atrair os seus polinizadores. As flores no deserto, por exemplo, são altamente vistosas e só duram um dia, e muitas das vezes, muito perfumadas. Porquê? Porque no deserto há muito pouco polinizadores e, como há poucos polinizadores, elas têm que chamar à atenção de uma forma muito gritante para atrair os que existem. Então desenvolvem essas estratégias todas. Portanto, isto são formas que as plantas têm de decidir: “eu tenho de ser assim porque eu preciso deste predador”. Há muito desconhecimento, muito mistério à volta da inteligência e da transcendência das plantas. Tal como há muito mistério à volta da morte também. A morte é um mistério, ninguém sabe o que é que acontece.


Há uma outra conversa com a Fernanda em que dizia que as plantas nos ensinam a estar no presente e a maravilharmo-nos com ele. Tem precisamente muito a ver com a ideia de uma coisa de que também falava ainda agora, que é a de não compreendermos a morte. De que forma é que as plantas nos ensinam a estarmos aqui, agora?

FB: É esta coisa que eu dizia de sabermos que o único momento absolutamente seguro que temos é este e podermos aceitá-lo e deslumbrarmo-nos com ele, seja como for. Há sempre coisas que nos podem deslumbrar: a cor do céu, uma nuvem que passa, um pássaro que canta, há tanta coisa. E é tudo tão efémero, tão presente, tão só aquele momento, e as plantas ensinam-nos isso. Hoje desabrochou uma papoila, amanhã já não está lá, portanto, ou tu te deslumbras agora ou amanhã já não a vês. E é isto que as plantas têm, esta beleza, este estar num tempo sempre muito curto e muito efémero. Eu fui educada num contexto católico, de ir à missa, mas assim que comecei a ler outras coisas comecei a perceber que aquela coisa do pecado, da culpa e do remorso associados à igreja católica, aquilo não me fazia sentido. Então comecei a ler muita literatura budista que me faz muito mais sentido. Não sou praticante, nem coisa nenhuma, só faço meditação de vez em quando. Conseguirmos ter o vazio dentro de nós, sem esperar nada, é isso, estar no presente.

Estamos aqui, agora.

FB: Eu agora estou a falar e estou a olhar lá para fora para o meu jardim, para os diferentes tons de verde, para as folhinhas de uma aveleira que de dia para dia estão maiores, os amentilhos já caíram, uma Agnus Castus que deu uma poda tão grande que eu pensei que ia perdê-la. E, durante meses, só era tronco seco e, de repente, de um dia para o outro, fui lá, e estava verde. Debaixo daquela secura toda, havia uma seiva adormecida que não se via e que estava lá e que alimentou aquelas folhas todas para furar e atravessar aquele tronco seco. E tudo isto para mim são maravilhamentos constantes que eu vivo aqui no meu jardim. Como dizia o Cícero, para ser feliz, só preciso de uma biblioteca e de um jardim. E é verdade, a minha vida resume-se a isso. E pessoas, gosto de pessoas, sobretudo de pessoas que gostem de plantas.

Qual é a primeira memória que tem de um jardim?

FB: Eu devia ter 10 ou 12 anos, se calhar menos, e quando mudámos de aldeia, para uma casa nova que o meu avô fez para a minha mãe, o pátio era daqueles todos lajeados de mármore e eu achava aquilo tão estéril e dizia “eu quero ter um jardim”. Arranjei uns tijolos, nem sei bem onde, e fiz um canteiro. Mas o fundo não era de terra, era de laje, mas enchi-o de terra e plantei. Fiz ali um pequeno jardim com, ainda me lembro tão bem, com cravos vermelhos cheirosos, e ainda nem tinha acontecido o 25 de abril, nem eu sabia desta ligação, nada. Tinha cravos e umas estrelas-do-egito, que são umas flores lindíssimas amarelas e castanhas, que crescem muito, não têm raízes profundas e eu ficava sempre deslumbrada. Aquele amarelo e vermelho aguentaram-se durante muitos anos. E os cravos foi uma vizinha que me deu porque, antigamente, e agora ainda se faz, as pessoas davam umas estacas de plantas umas às outras e depois explicavam como se fazia. Mas sim, sei que começou aí. 

E o amarelo e o vermelho foram ficando.

FB: Depois fui sempre gostando. Os meus avós, dos dois lados, são agricultores, e eu passavas as férias com eles numa quinta grande que tinha cerejeiras, nespereiras, um alperceiro gigante e a minha avó tinha lá um cantinho ao pé de um laranjal. O meu avô tinha um laranjal que era uma espécie de um jardim fechado com uma porta a que ele só me deixava ir às vezes e em que me pegava ao colo para eu cheirar as flores da laranjeira que, até hoje, é o meu cheiro preferido. Ainda agora, quando falo de flores de laranjeira é essa memória que me vem. E a minha avó tinha uma roseira daquelas muito escuras, aveludadas, que cheirava também super, super bem. Os primeiros pêssegos rosa que eu provei, que a minha avó apanhava da árvore e descascava, tinham um sabor que eu nunca mais encontrei.

Os nossos avós, os nossos antepassados, tinham uma relação diferente com o poder curador das plantas...

FB: Sim, isso foi-se perdendo, mas sinto que há uma recuperação, agora há muita gente interessada em herbalismo, em fazer cursos, em estudar, em perguntar aos avós, em recuperar terrenos dos avós para plantar plantas medicinais. Perdeu-se durante muitos anos, também com a entrada da indústria farmacêutica. As plantas têm menos efeitos secundários que os medicamentos, ainda que não sejam inócuas. Mas são muito mais benéficas, tratam muita coisa e previnem também. Além disso, as pessoas mais antigas comiam melhor, comiam tudo o que plantavam e as plantas eram adubadas com o estrume dos animais. Agora, com a entrada dos adubos químicos, dos pesticidas e dos herbicidas, que entraram ao mesmo tempo que a indústria farmacêutica, a saúde das pessoas foi-se deteriorando muito mais rapidamente. Que a indústria que te causa as doenças seja a mesma que depois as cura, dá que pensar.

O que é que é o herbalismo?

FB: O herbalismo é o tratamento e a prevenção de doenças e a manutenção da boa saúde recorrendo às plantas que crescem à nossa volta ou nem sempre: as hortelãs, os tomilhos, as malvas. São tantas as coisas que se tratam com as plantas e recorrendo também e muito àquilo que os nossos antepassados sabiam, tomando esse conhecimento, aproveitando-o, melhorando-o e utilizando-o no nosso dia a dia.


No fundo, o herbalismo também tem algo de transcendente se contarmos com as mezinhas antigas como algo místico, não é? Que não tem nada de místico, porque é, na verdade, natural.

FB: Mas as mezinhas, antigamente, muitas delas eram associadas a uns rezos, aliás há um levantamento do Giacometti, que não fez só apontamentos na música, também fez sobre estes rezos, estas cantigas e estas lengalengas que as pessoas faziam para tratar coisas que ainda hoje não têm assim muita explicação, tipo o bucho tombado, o mau olhado, essas coisas em que as pessoas acreditavam e aquilo era com um cházinho, uma mistura de ervas e uma reza. Ainda me lembro, a avó da minha mãe era uma dessas curandeiras daqui da aldeia e as pessoas levavam lá as crianças e ela dizia lá umas lengalengas, uma misturada de coisas pagãs com coisas cristãs, com nomes de santos e depois com azeite, muitas vezes com cruzes e azeite na barriga. 

A Fernanda é uma espécie de curadora informal de plantas. Recomenda plantas a quem está próximo de si.

FB: De forma informal, sim. Aqui aos vizinhos. Tenho aqui um vizinho que todos os dias me agradece o facto de eu lhe ter recomendado urtigas para a gota, que é extremamente eficaz. Nesse sentido sim, para a família, para os amigos. Eu estudei em Inglaterra, tirei o curso de herbalismo, mas é um curso de um ano para uso próprio, da família e comunidade que é o que eles chamam de community herbalism. Porque para tratar uma pessoa tens de ter bons conhecimentos de anatomia, tens de ter bons conhecimentos de bioquímica, é como um curso médico, são cerca de quatro anos.

Um jardim é uma forma de terapia?

FB: Completamente, ainda há uns tempos fui a Braga e alguém me contou que um talhão por onde passei era de um senhor com cerca de 80 anos que estava com uma depressão profunda e arranjaram-lhe aquilo para ele cultivar porque o médico lhe disse que a melhor cura para a depressão dele era mexer na terra, e pronto, dizem que agora o senhor está lá e está feliz. Está feliz da vida a ver as favas a crescer, as ervilhas. Está todos os dias ali. Claro que é uma terapia. A terra é uma terapia, eu acho que o só mexer na terra tem essa capacidade de absorver o peso do pessimismo e isso tudo. Mas principalmente o facto de nós estarmos ali todos os dias a contemplar a graciosidade com que as plantas vão crescendo. Só o facto de percebermos que conseguimos fazer crescer um jardim, já faz com que nos sintamos bem.

Ter algo de que cuidar também nos mantém vivos. Fernanda, já escreveu muitos livros sobre plantas, o que é que ainda tem para dizer e é mais urgente?

FB: Estou a fazer um livro infantil que vai sair este ano, que vai ser sobre as folhas serem a boca e a pele das plantas e resolverem ter formas completamente diferentes. Por exemplo, as agulhas de um pinheiro são completamente diferentes de uma folha de um cato, é tudo tão diferente, são tudo estratégias de sobrevivência que me maravilham todos os dias e é uma coisa que estou a criar agora. O outro é sobre as árvores medicinais. Temos tantas árvores à nossa volta e tantas partes das árvores para nosso benefício, quer sejam espirituais, pela contemplação, quer sejam um chá de agulhas de pinheiro. E um livro só sobre urtigas, porque é este fascínio sobre as urtigas que são tão versáteis, servem para tanta coisa e são super mal-amadas. Quero trazer um bocadinho de dignidade ao que é uma urtiga. O que tenho a dizer é isto, gostava muito de contagiar as pessoas com este entusiasmo, este fascínio, este amor, este respeito pelas plantas.

Fábrica Ideias
Music
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to

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Dela Marmy
Dela Marmy

Dela Marmy trabalha no seu segundo disco comprometida em semear, desencadear, desenhar e consolidar mudanças e interações mesmo que subtis, mesmo que difíceis, inspirada em valores de liberdade, igualdade, justiça, democracia e amor. 

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Este é o primeiro momento de residência dos participantes desta edição da Companhia Jovem de Dança de Ílhavo com o coreógrafo deste ano: Rui Horta.

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Os Pólo Norte são uma daquelas bandas que, mesmo quando achamos que não conhecemos, conhecemos. As canções ficaram nas nossas cabeças há muitos anos, mas é nas salas, nos teatros e auditórios que se revelam na sua verdadeira essência.

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2026 ENTREVISTA 2º Trimestre: Fernanda Botelho
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